Egun ou Kiumba?

Se você está começando a sua caminhada na Umbanda agora, é bem provável que já tenha ouvido palavras como “Egun” e “Kiumba” no meio de uma gira ou em alguma conversa no terreiro. Muitas vezes, parece que é tudo a mesma coisa, né? Mas calma, vamos tomar um café e desembolar isso de um jeito bem simples, sem palavras difíceis.

Existe uma diferença grande entre eles, mas também existe um “jeito de terreiro” de falar que a gente precisa respeitar e entender. Vamos lá?

O que é um Egun?

A palavra Egun (ou Egum) vem do idioma Yorubá e, na sua tradução mais simples, significa “espírito desencarnado”. Só isso.

Ou seja, quem quer que tenha passado pela porta da morte e deixado o corpo físico, se torna um Egun. Eu serei um, você será um, nossos avós são Eguns. Até mesmo os nossos amados e iluminados Pretos Velhos e Caboclos são Eguns, só que de altíssimo grau de evolução. É uma palavra neutra. O Egun é apenas o estado de quem já partiu.

E o que é o Kiumba?

Aqui a história muda. O Kiumba é um tipo específico de Egun. Ele é aquele espírito que desencarnou, mas escolheu o caminho do desequilíbrio. É o espírito que estacionou na maldade, no vício, na vingança ou na vontade de perturbar a vida dos outros.

Sabe aquela pessoa que, em vida, adorava tirar vantagem de tudo e criar confusão? Quando ela desencarna sem se arrepender, ela se torna um Kiumba. Eles vagam pelas faixas mais densas do plano espiritual (o famoso baixo astral) e são conhecidos por serem mistificadores. Como não têm luz própria, eles costumam tentar enganar as pessoas, fingindo ser um Exu ou uma Pombagira para pedir coisas absurdas e sugar a energia de quem está desatento.

Lembra do nosso papo sobre o Exu de Lei? Pois é, o Exu de Lei é o “policial” que desce nessas zonas densas justamente para amarrar e neutralizar a ação dos Kiumbas.

Como a gente sente essa diferença na pele?

Se tem uma coisa que a Umbanda ensina, é que o nosso corpo é o nosso primeiro terreiro. Nós somos antenas. Quando um Exu de Lei se aproxima para te intuir, você sente força, vitalidade, aquela vontade de levantar a cabeça e resolver a vida. A energia é densa, mas é firme e te joga para frente.

Já quando uma energia desequilibrada (um Kiumba ou um obsessor) encosta na nossa aura, o corpo avisa na hora. Sabe aquele bocejo sem fim que não é sono? Aquele peso repentino na nuca ou nos ombros, como se você estivesse carregando uma mochila de cimento? Ou então uma tristeza e uma irritação que surgem do nada, sem motivo nenhum? É a sua mediunidade natural avisando que tem uma energia sugando a sua bateria. O Egun desequilibrado encosta e drena, o Exu de Lei encosta e movimenta. É só prestar atenção aos sinais do seu corpo!

A Sabedoria dos Mais Velhos: Por que chamam Kiumba de Egun?

Se a diferença é tão clara, por que muitos Pais e Mães de Santo, especialmente os das antigas, usam a palavra “Egun” quando querem falar de um obsessor ou de um espírito ruim?

Isso é a coisa mais linda da nossa religião: a tradição oral. Nos terreiros de raiz, como os nossos guias de luz já têm seus próprios títulos de respeito (Caboclo, Baiano, Exu), quando uma energia pesada e sem luz encostava no terreiro, os mais velhos diziam: “Cuidado, tem Egun encostado aí”.

Eles usavam a palavra “Egun” para dizer: “Tem espírito de morto comum e perdido perturbando o ambiente”. Com o passar das décadas, na boca do povo de santo, “Egun” virou sinônimo de espírito sem luz.

Hoje, graças aos estudos de grandes mestres da teologia umbandista, como Rubens Saraceni, nós separamos os nomes (Egun para qualquer desencarnado, Kiumba para o obsessor) apenas para facilitar o aprendizado de quem está chegando. Mas se você ouvir uma Mãe de Santo das antigas chamando um obsessor de Egun, não a corrija! A sabedoria dela está corretíssima dentro da vivência e do chão de terra que ela pisou.

Na Umbanda, o estudo liberta, mas o respeito à raiz é o que nos sustenta.

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