O dia 27 de setembro e a energia que contagia
Quando chega o mês de setembro, parece que o ar fica mais leve, com cheiro de bolo, guaraná e maria-mole. O dia 27 de setembro é, tradicionalmente, o grande momento de celebrar os Erês. Essa data foi abraçada por conta do sincretismo com São Cosme e São Damião, os bondosos santos gêmeos católicos conhecidos por curarem as pessoas, em especial os pequenos.
Na tradição iorubá, essa força toda se conecta a Ibeji, a divindade dos gêmeos. É por isso que setembro inteiro — e, muitas vezes, estendendo essa magia até o Dia das Crianças, em outubro — é abraçado por essa energia festiva, colorida e profundamente curadora dentro dos terreiros.
Muito além de crianças comuns

Existe um pensamento comum de que os Erês são apenas “espíritos de crianças”, mas a grandeza deles vai muito além disso. A própria palavra tem origem no iorubá eré, que significa, em sua essência, “brincar”.
Eles são os grandes portadores da pureza, da inocência e da renovação. Na Umbanda, os Erês são entidades de altíssima vibração espiritual. Quando chegam, vêm para desatar os nós emocionais que a gente carrega, fazer aquele descarrego das energias pesadas e trazer a harmonia de volta para dentro da nossa casa. No Candomblé, essa força é tão vital que o Erê atua como uma ponte, um intermediário de extrema confiança entre a pessoa iniciada e o seu Orixá.
E se engana quem pensa que essa leveza toda significa falta de seriedade. A verdade é que, por trás daquele sorriso lambuzado de doce, existe uma sabedoria anciã. Os Erês são conhecidos por falar as grandes verdades que nós, adultos, muitas vezes tentamos esconder de nós mesmos. Eles dão aquelas “broncas” cheias de afeto, trazendo conselhos diretos e certeiros que quebram o nosso orgulho. Eles nos mostram que a solução para os nossos problemas costuma ser muito mais simples do que a nossa mente complicada tenta inventar.
A grande mensagem que eles nos deixam, em cada sorriso, puxão de orelha e abraço, é simples e poderosa: não importa o tamanho e o peso dos problemas que a vida adulta coloque nas nossas costas, nós precisamos resgatar e manter viva a essência da nossa criança interior.
A magia da celebração no terreiro e nas ruas

Quem nunca abriu um sorriso ao ganhar, ou ver alguém distribuindo, os famosos saquinhos de doces de Cosme e Damião? Essa entrega de balas, pirulitos e chocolates nas ruas e nos centros é muito mais do que um simples presente. É uma forma linda de pagar promessas, pedir proteção e, claro, espalhar o axé — aquela energia boa e vibrante — dessas entidades.
Nos dias de festa, as giras de Erê (também conhecidas como Ibejada) são de aquecer o coração. O terreiro se enche de cantigas de roda que nos levam direto para o passado, bolos enfeitados com carinho, refrigerantes e muitos brinquedos espalhados pelo chão.
E em várias regiões, com um destaque todo especial para a Bahia, a festa não fica completa sem o Caruru de Cosme e Damião, um banquete farto à base de quiabo, oferecido em homenagem aos santos e às crianças espirituais. É a espiritualidade nos lembrando que a fé também se alimenta de alegria e partilha.

