MEU ORIXÁ

O Orixá é meu ou da casa? Entenda a liberdade na Umbanda

Quem está dando os primeiros passos na Umbanda costuma carregar o coração cheio de fé, mas também cheio de dúvidas. E, infelizmente, em algum momento da caminhada, muitos de nós esbarramos em uma das frases mais tristes (e falsas) que se pode ouvir dentro de um terreiro: “Se você sair da minha casa, o seu Orixá e as suas entidades ficam aqui. Eles são da casa, não seus.”

Eu sei o quanto isso machuca e assusta. Sei disso porque eu mesmo já passei por isso. Já estive em um lugar onde a liderança espiritual estava mais preocupada com o dinheiro e com o poder do que com a honestidade e a caridade dos trabalhos. Quando decidi seguir o meu caminho, ouvi exatamente esse tipo de ameaça.

Hoje, escrevo isso para você, irmão ou irmã de santo que está começando: não tenha medo. O Orixá é a manifestação de Deus na sua vida e não é propriedade de ninguém.

A Coroa é sua, o Terreiro é uma escola

Para entender isso de forma simples, pense no terreiro como uma grande escola e no Pai ou Mãe de Santo como grandes professores e diretores.

Eles preparam o ambiente, ensinam a cartilha, zelam pela segurança do espaço e ajudam a despertar o dom que já existe dentro de você. Nós devemos respeito, gratidão e lealdade ao solo sagrado e a quem nos ensina. Mas, se um dia você precisar mudar de escola, a sua inteligência, o que você aprendeu e a sua essência vão com você, certo? O diretor da escola não pode “confiscar” o seu dom.

Na espiritualidade é a mesma coisa. O seu Ori (sua cabeça, sua coroa) é o seu altar mais sagrado. A sua ligação com o seu Orixá de frente, com o seu Anjo da Guarda e com as suas Entidades de trabalho é anterior à sua entrada naquele terreiro. Eles caminham com o seu espírito, são seus guias e guardiões.

O Axé da Casa vs. O Axé do Médium

Existe, sim, o Axé da Casa. Todo terreiro tem sua própria egrégora, seus guardiões assentados e sua força coletiva, que é zelada pelos dirigentes. Quando você veste o branco e trabalha ali, você soma a sua força à força da casa.

Mas o seu Orixá não mora no congá de pedra do terreiro; ele vive no congá do seu coração. Nenhum Pai ou Mãe de Santo, por mais respeitado que seja, tem a chave para “trancar” ou “tomar” as entidades de um filho de fé. Quem faz uso desse discurso não está exercendo a caridade, mas sim o que chamamos de terrorismo religioso, usando o sagrado para manipular, amedrontar e prender as pessoas por vaidade ou interesse financeiro.

E as minhas firmezas? Como fico se estou sem terreiro?

Uma dúvida muito comum de quem passa por isso e decide se afastar de uma casa é: “Posso continuar acendendo minhas velas e firmando meus guias no meu lar?” A resposta é: com certeza! A sua relação com o sagrado não entra em pausa só porque você está sem um terreiro fixo.

Você pode e deve manter a firmeza do seu Anjo da Guarda, acender uma vela para seus guias, oferecer um copo d’água, um fumo, uma oração e o seu respeito. Esse é o momento de fortalecer a sua fé íntima e pedir direcionamento.

Apenas lembre-se de uma regra de ouro: firmeza não é incorporação. Acenda sua luz, converse com seus guias, sinta a intuição deles, mas guarde o trabalho de incorporação para quando você encontrar um novo solo sagrado, preparado e seguro para isso. A firmeza em casa é o seu cordão umbilical com a espiritualidade, mantendo seu coração tranquilo até que um novo ciclo se inicie.

Caminhe com fé e liberdade

A verdadeira Umbanda liberta, não aprisiona. Um bom dirigente espiritual é aquele que cria asas nos seus filhos, para que voem alto e levem a luz da religião adiante. Se um dia o ciclo de um filho se encerra em uma casa, o verdadeiro Pai de Santo abençoa a sua jornada, sabendo que a espiritualidade é vasta e os caminhos de Oxalá são infinitos.

Portanto, se você ouvir que vai perder seus guias por sair de uma casa que já não lhe faz bem, respire fundo, bata sua cabeça com respeito, agradeça o que aprendeu e siga seu rumo em paz.

Os seus Guias não têm CEP. Eles têm você. E onde houver fé, verdade e amor, eles estarão ao seu lado.


Referências de inspiração para este pensamento: Alexandre Cumino (sobre a liberdade e o livre-arbítrio do médium na Umbanda) e os conceitos teológicos de Rubens Saraceni sobre o Orixá como divindade interna e inalienável do ser.

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