O Guia Definitivo dos Atabaques e da Curimba: História, Mistérios e a Missão Sacerdotal do Ogã.

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No universo da Umbanda e do Candomblé, o atabaque não é um coadjuvante. Ele é o segundo assentamento mais importante de uma casa, atrás apenas do altar (Congá/Peji). Ele é o Chefe que dita o ritmo do Axé e a voz que convoca os Orixás. Como diz o meu Exu Chefe: “Tem que ter Axé para colocar a mão no Sagrado, senão você só estraga o couro”.

Se você quer entender o que realmente acontece atrás do couro, este guia foi escrito para ser a sua enciclopédia do fundamento.


A Jornada Milenar: Dos Primórdios da Humanidade ao Solo Brasileiro

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A história do tambor se confunde com a história da própria humanidade. Não estamos falando de um instrumento de 100 ou 200 anos, mas de uma ferramenta de conexão espiritual que atravessa milênios.

As Evidências Arqueológicas

Escavações no período neolítico revelam a presença de tambores na Morávia datados de 6.000 a.C. Na antiga Suméria e na Mesopotâmia, pequenos tambores foram encontrados com idade de 3.000 a.C. No Egito Antigo, artefatos de 4.000 a.C. já mostravam instrumentos com peles esticadas.

Os primeiros tambores eram troncos de árvore ocos, cobertos com peles de répteis e percutidos com as mãos. Com o tempo, peles mais resistentes de mamíferos foram introduzidas, surgindo as primeiras baquetas e a variação de tamanhos.

A Origem Árabe e a Chegada na África

O Atabaque tem origem árabe. Ele foi introduzido no continente africano por mercadores que entravam pelo Egito e pelos países do norte. De lá, ele se espalhou e se tornou a voz das aldeias africanas. Na África, o tambor era (e é) o telégrafo espiritual: ele comunica avisos, celebra colheitas e, acima de tudo, chama os Ancestrais.


Os Três Pilares: Rum, Rumpi e Lê

Os atabaques, também chamados de Ilus em algumas nações, formam uma hierarquia de som e comando que deve ser respeitada rigorosamente. Eles representam uma unidade espiritual.

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O RUM (O Mais Velho): É o maior atabaque, com o som mais grave. Ele é o mestre. O Rum é o responsável por puxar o toque do ponto, por dobrar e repicar a batida para que o som não seja repetitivo. Nele, fica o Alabê, o Ogã de Sala ou o mais experiente da casa. O Rum conversa com a entidade que está em terra.

O RUMPI (O Médio): O segundo maior. Sua função vital é “responder” ao Rum. Ele mantém a base sólida e a sustentação do toque. Sem o Rumpi, o som do Rum fica “solto” e sem preenchimento.

O LÊ (O Caçula): O menor e mais agudo. Geralmente é confiado ao Ogã iniciante ou ao aprendiz. O Lê mantém a pulsação constante, o batimento cardíaco da gira, acompanhando o ritmo do Rumpi.

O Mistério da Unidade: Por que o recolhimento deve ser dos três?

Aqui reside um fundamento sagrado que muitos “Ogãs de final de semana” ignoram por preguiça ou falta de estudo. Existe uma regra de ouro no terreiro: se o couro de apenas um atabaque estoura ou precisa de troca, o correto é recolher os três instrumentos imediatamente.

A Unidade Vibratória

Os atabaques Rum, Rumpi e Lê não são três instrumentos isolados; eles formam um corpo único de axé. Imagine que o som do terreiro é um tecido: o Rum é a trama, o Rumpi é o fio e o Lê é o acabamento. Se você troca o couro de apenas um e o consagra isoladamente, você está colocando uma “peça nova” em um motor que já está rodando em outra frequência.

O Desequilíbrio da Corrente

Consagrar apenas um atabaque e deixar os outros dois “sujos” (com a carga acumulada de giras anteriores) ou sem o reforço do Amaci cria um desequilíbrio na corrente.

  • O couro novo terá uma vibração pura e “virgem”.
  • Os couros antigos estarão carregados com as vibrações das demandas passadas.

Essa diferença de “polaridade” entre os couros faz com que o som saia “manco”, dificultando a incorporação dos médiuns e a firmeza dos guias.

A Família de Couro e o Amaci

Eles são uma família. Quando os três são recolhidos juntos sob o Alá (pano branco), eles passam pelo processo de imantação coletiva. Eles “bebem” do mesmo Amaci e das mesmas ervas ao mesmo tempo. Isso garante que, ao voltarem para o terreiro, a frequência vibratória seja homogênea.

Em resumo: Tratar os três como uma unidade é garantir que o som do Sagrado seja uma nota só de pureza. Quem economiza no preceito, gasta no axé. Se um pede socorro, os três vão ao colo da espiritualidade para se renovar.


A Engenharia do Sagrado: Madeira e Couro

O atabaque não é apenas um instrumento de percussão; é um acumulador de energia axé. Para que ele armazene essa força sem “vazar” ou “rachar” espiritualmente, sua construção segue uma ciência antiga.

A Madeira: O Corpo do Orixá

A escolha da madeira é o primeiro passo do fundamento. Geralmente, utilizam-se madeiras de lei (madeiras densas e resistentes) como o Jacarandá, Cedro ou Mogno.

  • A Construção: O corpo é formado por ripas largas, unidas por aros de ferro de diferentes diâmetros. Essa forma cônico-cilíndrica não é estética; ela funciona como uma caixa de ressonância que projeta o som para o alto, em direção ao plano espiritual. Uma madeira de má qualidade “muda” a vibração do terreiro.

O Sistema de Tensão: A Voz da Nação

A forma como o couro é preso define a “identidade” do toque da casa:

  • Cravelhos (Nagôs e Gejes): O couro é preso por pinos de madeira ou metal (cravelhos). É um sistema de precisão, que permite um afinamento mais agudo, muito comum no Candomblé de Ketu.
  • Cunhas de Madeira (Congo e Angola – Ngomas): É o sistema mais tradicional e rústico. O couro é tencionado por cunhas de madeira batidas com martelo. Esse sistema confere um som mais encorpado e ancestral, muito presente na Umbanda raiz.

O Trato do Couro: O Segredo do Axé Vivo

Este é o ponto onde o Ogã mostra sua maestria. O couro de boi (ou de cabrito, dependendo do rito) é um elemento orgânico. Ele “sente” o tempo, a umidade e a energia da gira. Se o couro “morre”, o atabaque emudece.

O Processo de Curtimento e Escolha

O couro deve ser bem curtido, sem furos ou cicatrizes profundas que possam estourar com o repique do Rum. Ele deve ser esticado ainda úmido sobre a boca do atabaque para que tome a forma enquanto seca.

A Unção com Dendê ou Azeite

Diferente de um instrumento comum, o couro do atabaque precisa ser “alimentado”.

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O Porquê: O couro ressecado racha e perde o brilho do som. O Azeite de Dendê (para atabaques de vibração mais quente/esquerda ou conforme a nação) ou o Azeite de Oliva (para vibrações mais calmas/direita) penetram nas fibras da pele.

A Função Espiritual: Essa unção é um ato de carinho e respeito. O óleo cria uma camada protetora contra energias negativas que tentam “murchar” o som do tambor durante uma demanda pesada.

A Consagração pelo Sol

Após passar o óleo, o atabaque deve ser levado ao Sol.

  • Fisicamente: O calor do sol faz com que as fibras do couro se contraiam, deixando-o esticado “como uma corda de aço”. É o sol que dá o “estalo” no som do Rumpi e do Lê.
  • Espiritualmente: O sol é o elemento purificador. Ele retira as “larvas espirituais” e as energias estagnadas da última gira, renovando o axé da pele para o próximo trabalho.
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Fisicamente: O calor do sol faz com que as fibras do couro se contraiam, deixando-o esticado “como uma corda de aço”. É o sol que dá o “estalo” no som do Rumpi e do Lê.

Espiritualmente: O sol é o elemento purificador. Ele retira as “larvas espirituais” e as energias estagnadas da última gira, renovando o axé da pele para o próximo trabalho.

A Sensibilidade ao Ambiente

Um bom Ogã sabe que em dias de chuva ou muita umidade, o couro “folga”. Ele precisa conhecer o tempo de exposição ao sol ou o uso de calor (velas ou brasas, com extremo cuidado) para retomar a afinação. Nunca se toca um couro “frouxo”, pois isso atrai vibrações de desânimo para a corrente.


“Ogã, cuidar do couro é sua obrigação fundamental. Para manter a elasticidade e o brilho do som, eu recomendo o uso de Azeites puros e Dendê de primeira linha. Além disso, tenha sempre em mãos estopas de limpeza e capas impermeáveis para proteger o sagrado da umidade. Confira os materiais que eu uso no meu terreiro.


O Ogã: O Sacerdote Consciente

Um Ogã não é um “músico de terreiro”. Ele é um Tatá, um sacerdote cujo conhecimento muitas vezes precisa ser equivalente ao de um Zelador de Santo.

A Missão do Ogã

O Ogã é o único que permanece 100% consciente durante todo o ritual. Ele é a sentinela.

  • Antes da Incorporação: Deve estar atento ao Chefe de Gira e ao equilíbrio dos médiuns.
  • Durante a Gira: Após a incorporação do Chefe, os Ogãs devem “segurar a gira” no couro, garantindo que a vibração não caia e que as entidades tenham sustentação sonora para trabalhar.
  • Postura: Deve estar sempre de branco e com suas guias. Atrás do atabaque não existe brincadeira ou conversa paralela. O Ogã de Rum puxa o ponto, e os demais devem acompanhar em harmonia absoluta para não quebrar a egrégora.

Cargos Específicos

  • Alabê: O chefe dos Ogãs. É um cargo de extrema confiança, para quem não tem incorporação e se dedica exclusivamente ao mistério do som. Quando assentado, possui o mesmo grau de respeito de um médium feito.
  • Ogã de Rum: Quando não há um Alabê, o cargo é dado ao mais experiente, que assume o comando dos atabaques.

Preceitos e Obrigações do Instrumento

Os atabaques são o segundo assentamento da casa e devem ser respeitados como se fossem o próprio Orixá.

  • O Ritual de Bater Cabeça: Este é um dos momentos mais sagrados da gira. Antes de saudar o Pai ou Mãe de Santo, todos os médiuns da corrente — e especialmente os Ogãs que assumirão o couro — devem bater cabeça para os atabaques.
    • O Significado: Ao encostar a fronte no solo diante do Rum, Rumpi e Lê, o médium está pedindo licença à ancestralidade e aos Orixás que regem o som. É um ato de humildade onde se reconhece que o som que virá dali é sagrado e tem o poder de abrir portais.
    • A Obrigação do Ogã: O Ogã não “toca”, ele serve. Ao bater cabeça, ele consagra suas mãos e seu orí (cabeça) para que ele seja apenas um canal. Se um Ogã entra atrás do atabaque sem saudar o fundamento, ele está tocando com o ego, e não com o axé.
  • A Saudação de Autoridade: Na Umbanda, os membros mais importantes da casa e até visitantes de grau elevado se curvam e tocam o chão respeitosamente em frente aos atabaques. É o reconhecimento de que o “Chefe” (o Atabaque) já está em terra antes mesmo das entidades incorporarem.

A Ciência dos Toques: A Linguagem dos Orixás

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Existem mais de 15 ritmos (toques) fundamentais e milhares de cânticos. Cada toque possui um balanço e uma finalidade:

  • IJEXÁ: Toque calmo e cadenciado. Usado para Oxum, Oxalá, Iemanjá e Logum Edé.
  • BARRA VENTO: Toque rápido e vibrante. Usado para Iansã, Ogum e momentos de descarrego.
  • CONGO DE OURO: Muito comum na Umbanda para Caboclos e Pretos Velhos.
  • KABULA: Toque de fundamento muito usado para demandas e firmezas de mata.
  • ADARRUM: Toque de convocação rápida e urgente das entidades.

Relação de Toques por Orixá (Exemplos):

  • Oxalá: Ijexá, Kabula, Bate Folha.
  • Ogum / Xangô / Oxossi: Ijexá, Congo de Ouro, Barra Vento, Muxikongo.
  • Iansã: Agerrê, Barra Vento, Congo de Ouro.
  • Nanã: Congo, Kabula, Ijexá.

Conclusão: “Mão no Sagrado”

Ser Ogã é servir. Tocar atabaque é orar com as mãos. Se você busca esse caminho, saiba que a técnica é importante, mas o fundamento é o que salva. Sem preceito, o tambor é só madeira e couro; com axé, ele é o portal por onde o sagrado desce à terra.

Trate seu atabaque com amor. Limpe seu couro com respeito. E lembre-se sempre: o som que sai das suas mãos é o que guia os passos de quem busca a caridade na Umbanda.

Axé pra todos!



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